Autor: Conrado Viana

Como falar de financeiro e ser interessante? Não ficar naquele discurso chato de “no ano 1 era R$ 1.000 e no ano 2 foi para R$ 1.500, uma evolução de R$ 500, perfazendo 50% de crescimento”. Só de pensar, dá sono. Imagina falar em 10 anos das finanças de um clube e ainda assim ser interessante. Uma tarefa que parece árdua. No entanto, como estou tratando de paixão e interesse de muitos, creio que vá fazer sentido.

Diariamente ajudo diversas pessoas a entenderem o resultado de seus negócios. Neste artigo não quero atacar ou falar que está errado isso ou aquilo. Até por que amo esse clube de forma tão incondicional que cravei na pele “uma vez até morrer”. Só quero elucidar um pouco a vida financeira do Galo. Tão obscura e confusa para muitos.

Trago as informações entre os anos 2012 a 2021. Poderia detalhar diversos assuntos, mas ainda na vontade de tornar o tema agradável, decide falar apenas daquilo que sempre gera discussões: Lucro, receitas e endividamento.

Então, respirem fundo e vamos lá…

Lucro

Sobre lucro serei breve, até porque não tem muita coisa para falar. Em 10 anos o Atlético-MG só teve resultado positivo em 3 anos (2016, 2020 e 2021).

Considerando que o negócio é futebol, podemos falar que apenas em 2016 o resultado foi efetivamente positivo. Neste ano o lucro (superávit para os mais técnicos) foi de R$ 2,1 milhões. Pouca coisa para quem faturou aproximadamente R$ 306 milhões naquele ano (retorno de 0,58%). Mas é melhor o pouco do que o prejuízo, como sempre ocorreu.

Para os outros dois anos com lucro, o resultado positivo se deve a negócios extra futebol.

Em 2020 houve a venda de parte do Shopping Center Diamond Mall fazendo o clube embolsar R$ 268 milhões. Como o lucro deste ano foi de R$ 19 milhões, sem a venda do Shopping, o prejuízo seria enorme. Ainda é bom ponderar que foi o ano mais intenso da Pandemia da Covid-19 e isso afetou as receitas drasticamente.

Em 2021, ano mais vitorioso da história do Galo, tivemos um resultado positivo que salta aos olhos: R$ 101 milhões. De forma surpreendente este lucro não se trata do resultado com futebol. Neste ano, o faturamento líquido com futebol foi de R$ 494 milhões, só que gastou R$ 541 milhões. Ou seja, faturou menos que gastou.

E assim como em 2020, o resultado positivo se deve a operações extra futebol. Foi reconhecido R$ 232 milhões referente a valor justo do estádio em construção. E este valor sequer vai virar grana no bolso, é apenas uma atualização a valor de mercado.

Receitas

Quando falamos de receitas é bom comparar com a inflação (IPCA) para sabermos se houve o crescimento real. Entre 2012 e 2021 a inflação acumulada foi de 79,8%, já as receitas do Atlético-MG passaram de R$ 146 milhões em 2012 para R$ 494 milhões em 2021. Crescimento de 238%. Então podemos falar que futebol “dá dinheiro” e não é pouco.

2021 não é uma boa referência. Ali estão receitas de um ano vitorioso, que gerou direitos de transmissão muito maiores que os anos em que não há conquistas nacionais ou internacionais.

De forma geral, as receitas do Galo em anos de Copa Libertadores são muito maiores do que em anos que não participa da competição (2012, 2018, 2020). Tanto bilheteria, quanto receita de transmissão crescem muito. Isso por que essa competição mexe muito com o torcedor, lota os estádios, além dos prêmios da Conmebol serem muito bons e em dólar, o que na atual conjuntura é excelente para os times brasileiros.

Ou seja, em um ano comum para o Galo (considerando que comum é participar da Libertadores) as receitas giram em torno de R$ 300 milhões por ano. Como ocorreu nos anos 2016, 2017 e 2019. Esperar mais do que isso, pode não ser adequado, pois a imprevisibilidade é gigantesca.

Antes que os mais malucos falem que é pensar pequeno não projetar que um clube vai ser campeão, posso dizer que esportivamente isso é plausível, no entanto, financeiramente que não se deve contar com recursos de títulos. Um analista financeiro deve ser prudente, não um apaixonado.

Olhando especificamente a venda de jogadores, vemos que esta receita é extremamente inconstante. Em 2014, mesmo sendo campeão da Copa do Brasil, o Atlético-MG só faturou R$ 1,6 milhões. Já em 2019 (recorde de venda com jogadores) este valor chegou a R$ 106 milhões. Foram vendidos Allerrandro, Marcos Rocha, Emerson Royal (só Emerson na época), Luanzinho, parte dos direitos do Douglas Santos, além de emprestar vários jogadores ganhando uns trocados.

Ainda sobre receitas, vale ressaltar o catastrófico ano de 2020. Sem Libertadores, pandemia pesada e arrecadação simbólica com bilheteria e direitos de transmissão. Ano para se esquecer. Apenas financeiramente falando, pois esportivamente ali que as coisas começaram a virar.

Mas aí vem uma dúvida: Como o Galo arrecada pouco em 2020 e mesmo assim monta a base de um time que ganha tudo no ano seguinte?

A resposta é simples: Pega dinheiro emprestado!

Endividamento

No quadro ao lado é possível ver as dívidas de curto e longo prazo nos últimos 10 anos.

Só houve redução em 2017, coincidentemente um ano após existir lucros. Sempre que sobra uma graninha, como ocorreu em 2016, aquele que deve, normalmente busca pagar dívidas.

O crescimento da dívida acontece ano a ano, no entanto, cabe atenção aos dois últimos anos (2020 e 2021), onde o endividamento dobrou, passando de R$ 761 milhões para quase R$ 1,5 bilhões.

Vejo muitos noticiários sobre o endividamento Galo e sempre arredondam para R$ 1 bilhão. Não querendo ser pragmático, os arredondamentos mereciam um pouco mais de cuidado, pois acredito uma diferença de R$ 500 milhões mereça atenção.

Em 2021 o passivo é composto por empréstimos (R$ 580 milhões), tributos (R$ 319 milhões), compra de jogadores a pagar (R$ 277 milhões), adiantamentos (R$ 99 milhões), além de outros passivos que totalizam juntos cerca de R$ 200 milhões.

Uma parte dos empréstimos, R$ 185 milhões, está classificada como recebida de pessoas jurídicas não financeiras. Os juros são baixos em relação aos demais empréstimos, apenas taxa Selic (13,75% a.a atualmente). Acredito que aqui deva estar classificado os padrinhos mais apaixonados pelo Atlético-MG, que colocam dinheiro no clube com o intuito de ajudar.

Já o valor a pagar referente a compra de jogadores é o famoso levou e não pagou, ainda. Isso não quer dizer necessariamente calote, existem negociações de compras a prazo. Se você pode parcelar a compra de um computador de R$ 3 mil reais em 12 vezes, por que não comprar um jogador de R$ 5 milhões em 10 parcelas?

Mas o que ocorreu nestes últimos anos para o ‘bum’ das dívidas?

Analisando o resultado, se tirarmos as operações de venda do Shopping Diamond Mall (2020) e o ganho com o Estádio (2021), o Galo acumulou prejuízos de R$ 383 milhões com o futebol, despesas gerais e juros. Também foram adquiridos R$ 432 milhões em jogadores, totalizando gastos R$ 816 milhões. 

Se me perguntarem, falaria que esse é o preço dos títulos da Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. Para você, vale a pena?